22/08/2017 - Estiagem causa baixos níveis de água e preocupa população do Araguaia
Com a estiagem dos meses de julho, agosto e setembro, os rios da região central do Brasil têm registrado baixos níveis de água. No Araguaia, a época possibilita a alta temporada de praia, mas baixas extremas já preocupam, há alguns anos, a população que margeia o rio. Em alguns pontos, bancos de área impossibilitam a navegação, prejudicando comércio e turismo. Especialistas e militantes apontam a ação humana como um dos influentes no processo, que pode secar o rio dentro de 40 anos.
Com o fim da temporada de julho, quando o volume de turistas diminui nas praias do Araguaia, os alardes imediatamente iniciam. “O rio Araguaia está secando”. Há alguns anos a frase se alastra na boca de ribeirinhos e da imprensa, assustados com o levante das grandes dunas de areia no leito do rio.
Em 2016, o programa Jornal do Campo, da sucursal da Globo em Goiás, ressonou a frase em uma série de reportagens, seguido por outros veículos jornalísticos, que mostraram a situação do curso d’água e dos principais afluentes do lado goiano. Até o Jornal Hoje usou as mesmas palavras para descrever o problema de uma das principais bacias do país.
Na época, estourava a investigação da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente (Dema) a respeito do uso da água do rio para a irrigação no agronegócio do estado. Também já era de conhecimento da delegacia que a pecuária destruía matas ciliares e nascentes para a produção em larga escala.
Hoje a retirada de milhões de litros de água do leito do Araguaia e o pisoteio das nascentes pelo gado, obstruindo-as, aproxima cada vez mais o destino do rio à previsão da Dema, a partir de estudos divulgados em 2014, de que ele irá secar em quatro décadas.
“Nós temos uma previsão obvia, lógica, não é fantasiosa. O rio Araguaia vai secar em 40 ou 50 anos”, afirmou a TV Serra Dourada, do SBT de Goiás, o delegado do Dema, Luziano Carvalho.
Umas das causas do prejuízo à bacia é a degradação dos afluentes. No ano passado, em tempo de estiagem, o rio Vermelho secou completamente e muitos outros se mostram, ano após ano, com baixos níveis, o que prejudica a navegabilidade e interfere, principalmente, no curso da vida aquática.
O rio Garças também apresenta os efeitos da ação degradante do homem. Em Barra do Garças, a cada ano, é possível observar imensos bancos de área, resultado do processo de assoreamento que tem ocorrido no rio.
“Há 15 anos atrás, as embarcações navegavam tranquilamente. Hoje não. Os barqueiros que levam turistas até a praia da Arara não querem fazer esse passeio porque é muito difícil para eles estarem desviando dos bancos de areia. Por mais que eles conheçam o rio, pode até quebrar uma hélice do motor”, afirma o autônomo Antônio Carlos Marques de Araújo, que realiza passeios a caiaque na região.
Destruição de margens
O que ocasiona o assoreamento são os processos erosivos nas margens dos cursos d’água, que despejam sedimentos no leito. Esses processos de desagregação de areias e outros materiais dos solos das beiradas dos rios é natural até certo ponto, destaca o geólogo Silvio Cesar Oliveira Colturato, professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Segundo ele, quando os humanos extraem a vegetação das margens, as chamadas matas ciliares, há uma intensificação das erosões.
Além da formação de bancos de areia, o geólogo destaca que o assoreamento também causa a turbidez das águas, um problema mais silencioso, que acarreta em prejuízos a vida aquática. Partículas menores de sedimentos erodidos não afundam e ocupam a superfície do leito do rio, o que torna a água turva. Com menor incidência de luz no fundo do rio, toda a biodiversidade aquática fica comprometida.
Em toda a região, é notável a degradação das matas ciliares, a partir do processo de ocupação urbana e rural. Em estudo recente, a urbanista Greyce Bernardes de Mello Rezende, especialistas em recursos naturais, identificou a extração da mata ciliar e substituição por vegetação exótica na região de Barra do Garças. Ela ainda relaciona a ausência de vegetação nativa com os pontos de assoreamento do rio Garças. “Os locais onde houve mais retirada de mata ciliar foram aqueles que mais apresentaram extensos focos de erosão e, consequentemente, assoreamento do rio.”
De acordo com a bióloga Maryland Sanchez Lacerda, também professora da UFMT, a mata precisa estar bem estruturada para exercer suas funções ecológicas. A professora da UFMT destaca a intensa proliferação de bambus nas margens do rio das Garças e do Araguaia, que, segundo ela, não é adequada para a composição da vegetação ciliar.
“Não é típico que essa espécie exista ali, naquelas condições e naquela densidade. É uma planta bem agressiva, que impede a recomposição da mata”, observa.
Para especialistas, as margens nativas devem ser protegidas e as degradadas, reconstituídas de forma correta, amparada por estudos. Embora falte ações governamentais, a população que mora na beira do rio também poderia contribuir para a manutenção das matas. “Os proprietários de casas poderiam ajudar repovoando a margem do rio pelo menos com um número mínimo de árvores”, afirma Maryland.
É bom lembrar que a extração de vegetação da margem do rio, considerada Áreas de Preservação Permanente (APPs), sem estudo de impacto ambiental e autorização de órgãos ambientais é ilegal. Em Barra do Garças, a denúncia deve ser feita na unidade local da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema). O contato telefônico é (66) 3401-4167.
Por Kayc Alves/Da Redação

